Quando sei e vejo algo que não é da minha essência e não tenho como discutir. Quando acho tantos impropérios, e que nunca serão próprios, vagando pelo éter cada vez mais sujo, palpável. Quando ainda penso – e como penso!- e não tenho mais vontade de mostrar o que ainda vaga pela minha cachola, calo-me. Quando escuto coisas próximas e que absolutamente não concordo, mas estou com as mãos e pés amarrados (virtualmente) e não tenho quase nenhuma rota de fuga.
Quando vejo meu país desabando e abarrotado de inúteis acéfalos querendo só o seu quinhão (e que quinhão!), sem dar nada de útil para os que vierem depois. E os que vierem antes que deram, de um jeito ou de outro, a chance desses mesmos acéfalos terem voz. Quando escuto e leio sobre a intolerância, o desprezo, a ganância subir bem alto num pódio que não deveria sequer ter. O mundo de ponta cabeça querendo que os cabelos fiquem na sua posição direita.
Ser direito não tem nada a ver com sua posição, seja ela de que lado for. Ser direito é ser reto na suas ideologias, sejam elas quais forem. Se meu cabelo é fino, que engrosse-o com uma fivela que caiba. Se a minha cor preferida não te agrada, que troquemos por uma que seja boa para ambos. Se não gostar de nenhuma é porque o problema é você, vá procurar sua turma e me deixe em paz, eu e minha cabecinha de vento. Que se cala.
Calo-me diante de tantas injustiças que um dia virão até mim e aos meus. Calo-me diante de tantas aberrações, sejam elas legalizadas ou absurdamente atabalhoadas, que vivem rondando nossas vidas. Calo-me quando da chuva nada se encontra. Calo-me diante do sol quando dele só temos o ardor. Calo-me ao acordar para que consiga escutar o vento da manhã e o ar que está chegando. Só não calo-me ao meu café, porque ele frio é horrível.
Fico calada quando sinto o errado no ar. Essa é a minha essência.
E calar-me-ei diante da imbecilidade alheia em todas as instâncias.