Saci-pererê, Iara, Boitatá, Boto-cor-de-rosa, Mula sem cabeça, Curupira e o não menos famoso Negrinho do Pastoreio, esse o único dessa humilde lista que não era defensor da floresta, visto que era um escravo e, como tal, foi vitimizado até a sua morte. Mas essa é uma outra história que a Virgem Maria pode contar melhor.
Pensei num novo momento, com outros entes imaginários, que poderiam ser “humanizados”. Não poderiam ser de verdade, de carne e osso e picanha. Pessoas fantasmagóricas, que assombram nossa alma, nosso bolso, nossas janelas e, por fim, nosso sossego enquanto cidadãos que somos.
Vamos a novos fatos folclorescos: Ovo Choco, um ser etéreo que paira por sobre o céu do Brasil. Onipotente, seu único medo é que sua cadeira pomposa rasgue e as molas do estofamento pulem em seu colo. Mula com Cabeça Oca, é uma mistura de mula burra, bem burra mesmo, com um ar de zebra sem listras, só com código de barras igualmente burras. Seu único medo é de se encontrar com um leitor QR, porque ele sabe ler. Muito bem.

Outra entidade, essa sim perigosa quando desafiada, é a Dona Senhora Anja, que de anjo não tem nada além do nome, é um ser nada etéreo, que aparece em todos os momentos, e que não sabe andar sozinha. De preferência de mãos dadas com alguém, algum, qualquer um. Seu maior medo é o de ser esquecida na praça, nas ruas ou nas redes.
E não poderia me esquecer dos mais temidos: a pequena loira louca, que se atira no chão quando uma grama é pisoteada, mas fica muito louca quando lhe dão uns apertos para cair na real. Às vezes funciona por alguns minutos. Seu maior medo é o de crescer e ser presa num hospício.
E finalmente, o mais assustador, acho eu: O Senhor Dedos sem Mãos. Esse ser é tão somente uma dúzia ou menos de dedos soltos, sem corpo, que às vezes se multiplicam, às vezes se encolhem, depende muito do clima. E não digo de atmosfera, mas de clima, climão, essas coisas bobas que descobriram para dar assunto pras DRs de todos.
No caso dos dedos, são furtivos, se enfiam na sua carteira sem que ninguém perceba e, quando isso acontece, vão-se os seus anéis. Seu maior medo é o de ser enfiado numa luva, bem apertada, pois ele é extraordinariamente espaçoso, com seu ego cheio de unhas para arranhar quem chegar perto demais. Cuidado, uma dedada dele pode ser perigosa, principalmente em noite de lua gorda, seja lá o que isso signifique.
Peço ainda licença, ainda que poética, ao não menos querido Monteiro Lobato, que com suas histórias ilustrou minha infância, com suas línguas do pê, tão divertidas e tão sinuosas, mostrando que o silêncio ainda vale mais que mil palavras. Mesmo no pê. De Paula, por-por fa-pa vor-por.
