Mesmo sem precisar agora falar sobre animais, são de longe os que eu mais amo contar, principalmente quando vejo os que tenho aqui comigo e como se comportam com o passar dos anos. Cachorros, por exemplo. Os velhos, principalmente, já que aqui os tenho em altas patentes. Bobi foi considerado o cachorro mais velho do mundo, com reconhecimento do Guiness que, para quem não sabe (duvido que ninguém saiba!) é o sonho de todo narcisista que não tem mais nada a fazer na vida.
Sabe aquelas pessoas que acham que o mundo inútil dele roda ao redor de si all time? Pois! O Guiness foi feito pra essas pessoas. O Bobi é um cachorro senilíssimo, no melhor superlativo absoluto sintético. Ele, que já não ligava para a fama etária que lhe foi imposta, agora tem que ser o mais importante: é o mais velho. Com 31 anos, vai ganhar o quê? Espero, ao menos, que lhe continuem tratando direito, como um cachorro senil que é.
Sua raça, a portuguesa Rafeiro do Alentejo, deu-lhe o puro sangue e é uma raça treinada para guardar gado. Coisa que ele nunca fez. Talvez por sua bondade, seu jeito luso de ser, deixou a tempos essas suas destrezas de lado e ficou além Tejo. Como sua idade se avançou muito, agora ele não enxerga mais com tanta acurácia, assim como andar começou a ficar mais trabalhoso. Desta forma, seu dono, ou pai ou qualquer outra forma de amar os cães, aproveitou-se da idade dele para fazer-lhe uma festa, afinal, ele merece tudo o que tiver ao alcance de suas patinhas.
Teoricamente, a cada ano de um cachorro de porte grande, como o Bobi, somam-se uns 8 anos dos nossos. Calculando, ele teria, então, uns 248 anos, mais ou menos. Nada mal para um portuga. Haja vinho. E bacalhau. Ele não escreve nada, claro, é só um cachorro, mas se escrevesse… Que alguns não leiam, mas Bobi os tira de letra. Literalmente.
Não tentaria reinar absoluto num canil de raposas, não rouba as galinhas dos vizinhos antes que elas ponham os ovos, tampouco viveria no Nordeste, muito menos no brasileiro. Também não é um imortal da Academia Brasileira de Letras, apesar de ter idade pra uns mil livros. Mas tem uma história digna de um filme: há muuuito tempo atrás, ele e outros três cachorros nasceram num barracão, onde uma família portuguesa guardava lenha.
Como não podiam ter mais animais, provavelmente por causa da superlotação, aproveitaram a distração de Gira, a mãe, para retirar-lhe os filhos. Essa parte da história eu gostaria de dispensar, mas ele é parte da vida do nosso querido Bobi. Enquanto os irmãos foram mortos (sério, de verdade?), ele ficou para trás, certamente escondido, porque sempre foi esperto. Que coisa mais horrorosa!! Cadê a militantezinha com roupas de grife da feira, maquiada e perfumada que já aparecera em outras crises caninas?
Quando Leonel Costa, o atual tutor/dono/pai/irmão/amigo de Bobi, na época com 8 anos, e seus irmãos perceberam que Gira continuava a visitar o barracão, decidiram investigar. Foi aí que encontraram o Bobi, fazendo com que os três irmãos ficaram na surdina, protegendo o filhotinho.
Ao perceberem que o cachorrinho estava vivo, os pais não tiveram outra opção: abriram as portas de casa. Assim a vida seguiu, todos cresceram e ao lado esteve sempre o Bobi, um cachorro do bem, calmo, tranquilo, nunca acorrentado, sempre livre e que gosta de dar suas caminhadas. Amigo de todos os animais, Bobi fez da sua vida um exemplo para aqueles que querem tudo agora, já, imediatamente: a pressa, sempre inimiga da perfeição.
Ter idade avançada não deve ser uma sentença de morte. Envelhecemos, cada um com a idade que quiser. Eu, por exemplo, tenho 97, mas aparento 58 e ninguém duvida disso. Tem uns que, aos 15 já são velhos e chatos. Outros, de 77 ainda acham que estão na pré-adolescência-senil, com suas “mina” de 56.
De bobo o Bobi nunca teve nada. Mas não deixou que a fama, os holofotes e paparazzi o inundasse com ideias chulas e de péssimo gosto. A vida é muito boa praqueles que conservam seu caráter e não se deixam levar por falsas joias, falsos cargos, falsos amigos, falso poder.
Feliz Dia do Amigo para quem sempre foi o melhor amigo do homem. Nesse caso, o mais velho também.

