Um dia, o mundo começou a virar ao contrário. Só pode ser. Aquele jogo Detetive serviria muito além do Coronel Mostarda, com a corda, na Biblioteca, que sempre era derrubado e tudo acaba em nada. Como sempre. Ou acabava em surra nos menores caçulinhas como eu, que sempre eram os que ganhavam.

Digo isso em causa própria, sem mágoas. Mas aquele restinho de vingança continua me perseguindo, porque todos nós, caçulas, já sabemos: se não for o mimadinho, o protegidinho, é aquele que sempre pega o fim do pão, as casquinhas de amendoim soltas pela mesa, a última migalha daquele pacote delicioso de biscoito amanteigado e importado da Suíça quando o primo distante veio pra cá. Provavelmente não voltará nunca mais. Nem o biscoito, porque esse não vem na lista de compras de ninguém!
Petiscos da noite prontos, agora o caçula já pode se sentar à mesa e conversar sobre os mais variados assuntos, desde que lave as mãos e escove os dentes. Com o resto de pasta, já amassada, que é o que você tem de direito. Falando em direito, quando você, que não é o caçula, vê uma roupa já usada e que não quer mais, faz o quê? Dá pro caçula, oras. Não sabe mais o que fazer com esses livros? Caçula! E as receitas de comidas esdrúxulas ou que ninguém quer experimentar?
Deixe que nós, caçulas, temos o dom maior de sermos cobaias. Nunca soube de algum que tenha passado tão mal depois de comer essas gororobas. Se passou mal, também, quem liga? E as pipocas no fim do saquinho, já murchas e que ninguém nem consegue mais chegar perto? Ora, ora, tem sempre um caçula por perto pra raspar o sal e as casquinhas de pipoca que irão grudar entre os dentes. Vai ter que filar também um naquinho de fio dental e se virar com isso. Acabando a guerra, varrem-se as migalhas da vida, desamassando as latas porque não tem mais caçulas à disposição. Sem caçulices ao redor, sem raspas de brigadeiro na panela.
Haja canja para aliviar a má digestão.