Vou-me embora para Pasárgada, lá não sou amiga nem do Rei

Minha cidade natal, São Paulo, deveria ser a melhor em tudo: temos parques, mesmo que cheios de lixo, clubes, ainda que alguns sem alvará, áreas verdes quando não são invadidas e largadas às traças, e gente hospitaleira, desde que não toquem fogo em balões, museus ou estátuas e funk noite adentro. Borba Gato que o diga.

Para quem ainda não conhece, a cidade de São Paulo é a 10ª cidade mais rica do mundo e a maior do país. De acordo com as previsões, que não são as meteorológicas, ainda bem, em 2025 será a 6ª cidade mais rica do planeta. Isso se ainda tivermos planeta e for habitável. Segundo dados do IBGE, em 2017 seu PIB foi de R$ 699,28 bilhões. Além disso, seu setor de comércio é variado, um dos motivos para ser uma das maiores potências mundiais.

Eis que surge São Pedro e seu mau-humor de fim de verão. E chove. Muito. Chove tanto que em um fim de semana quase 700 árvores se suicidaram. Suicídio, porque não há outro motivo para uma cidade tão incrível como São Paulo não ter um controle de suas árvores. Imagine se numa cidade desse porte permitiriam que as árvores tivessem infestadas de cupins. Imaginou? Essa é São Paulo, ex-cidade da garoa.

Eu, uma incrédula de boas novas, já cansei de ouvir isso, aquilo e aquela coisa toda de a melhor do mundo, a mais rica, a mais poderosa; por isso saí da minha antes cidade mascote. Todos os dias, num repente de quase saudade, ligo a TV para ver como as coisas andam por lá. Não andam. E quando andam, vem junto um bando de marginais pelos cantos e arrancam tudo o que você tem. Às vezes e comumente, arrancam a vida também. Passou a saudade.

E o prefeito, não está ali para gerenciar nossas vidas nessa nossa cidade incrível? Pois, deveria, mas não faz mais do que acordar de manhã, tomar seu café com leite de vaca recém-ordenhado com café torrado, moído e coado na hora, comer seu croissant quente e crocante, tomar seu suco de laranja direto do seu pomar particular e sair para seu trabalho maçante de brincar de prefeitura.

E a minha cidade mascote está lá, de braços abertos, sem tomar banho porque a última chuva do fim de semana fez o encanamento do bairro todo ruir, sem luz porque as árvores caíram e arrebentaram a rede elétrica. Ué, a rede elétrica já não tinha sido toda aterrada? Deveria, mas não. “Não encontramos ainda a concorrência ideal, a autorização, a cara de pau de assumir que nada fizemos”.

Estação Júlio Prestes à noite. Quem encara uma voltinha por ali?

Desde a semana passada, um terminal ferroviário muito importante e histórico, concluído em 1938 lá no centro da cidade, a Estação Júlio Prestes, teve uma cratera nos seus trilhos, imobilizando toda a malha ferroviária da cidade e adjacências. Buraco tapado, toca o trem. Choveu novamente e outro buraco no mesmo lugar. Alguém estava dormindo nessa hora e não fez a massinha direito. Decidiram pôr uma coluna para dar mais sustentação. Uma nova Coluna Prestes, quem diria, será que dessa vez alguma coisa vai prestar?

E a vida segue, aos trancos, agora sem barrancos porque todos já ruíram. Mas segue. Sem ônibus ou fretado. Temos uber, aquele mesmo que andam roubando a torto e a direito. Ah, sim! Tem as ciclovias, ciclofaixas, ciclotombos e cicloatropelamentos. Melhor andar a pé pela cidade, tão linda, tão cheia de vida, tão cheia de zumbis que chegam pra te roubar um celular para trocar por uma pedrinha de crack.

São Paulo deveria ter um prefeito perfeito, escolhido a dedo, com a única obrigação de servir aos nossos anseios, para que pudéssemos acordar cedo, tomar nosso café da manhã com um pãozinho fresco e crocante e, talvez uma frutinha, para saírmos de trem, ônibus ou mesmo de carro até o nosso trabalho com o orgulho paulistano, nascido ou não na cidade.

Deixei-a com um “até logo”, querendo dizer um “cuide-se”. Guardei-a como a mascote das minhas lembranças. Lá eu não tenho medo.