Quando tinha 9 anos, ou um pouco menos, recebi na escola um grupo que se denominava SOZED* – Sociedade Zoófila Educativa, a qual prometia uma proteção a todos os animaizinhos que estavam abandonados nas ruas. Pois bem, depois de pagar uma taxa – simbólica até, recebi em casa uma carteirinha, com minha foto e com um manual de como poderia proteger os animais nas ruas que estivessem sofrendo, de fome, frio, de abandono ou de maus tratos, o que mal era comentado na época. Achei que seria a salvadora dos bichinhos, que ninguém os maltrataria na minha frente. Santa inocência a minha.
E lá se foram muitas décadas. E os animais, cães e gatos em sua maioria, continuavam nas ruas, daquele jeito, fugindo da carrocinha, comendo lixo e tal. Cresci. O número de animais nas ruas também. E ONGs em prol dos animais também, garantindo alguma coisa para poucos. Os sites de adoção bombaram nas últimas décadas, pessoas famosas se prontificaram a ajudar, pessoas desconhecidas também. E a maldade apareceu mais forte. E em forma de apostas em brigas, as rinhas. Quando falamos em rinha, logo nos lembramos dos famosos galos de briga. A maldição pelo qual os animais são submetidos devia ser comparada a um campo de concentração. Isso não pode continuar. Qual a diversão em apostar para ver quem morre primeiro?
Bem fez a Disney, em retratar o Ferdinando, o touro mais doce que já vimos, fazendo com que crianças possam se apaixonar por um ser tão grande e com um coração tão bom.

Domingo passado, li um artigo do Vargas Llosa no jornal, dizendo exatamente o contrário, que devemos então respeitar as rinhas lá no Peru, em Madri e onde mais esses eventos fazem parte da história. Mesmo abominando esses hábitos peculiares, tenho que dar a mão à palmatória, torcer o nariz e engolir seco a cada vez que ouvimos as dores dos animais. São eventos locais, cultuados pelos seus, têm um alcance extraordinário e têm o poder de reunir as pessoas em festas regionais. E o que dizer das touradas, senão da “dança do toureiro”, simulando um tango com seu opositor? Realmente, é como uma dança, tem lá seu respeito, mas ainda prefiro um bolo de chocolate e uma taça de vinho. Mas em 2018 morreram, só na Espanha, algo em torno de 300 mil touros. Precisamos só rever alguns conceitos.
Em tempo: rinhas de galo e touradas são festivais e deles pessoas tiram sua diversão e, em alguns casos, seu sustento. Mas as brigas de pitbulls aqui no Brasil, país sem nenhuma cultura desse tipo, que ficam deformados pelos anabolizantes, até quando? E as brigas de galo, que têm as esporas arrancadas? E os cavalos de rodeio? E os cavalos de carroça? Creio que, antes de serem tombadas pelo IPHAN ou por qualquer mecanismo de proteção, temos que levar em conta a nossa história, nossas conquistas, nossa evolução. Ou alguém ainda comemora a criação do fogo ou a invenção da roda?
Esta coluna poderia contar somente sobre o lado fofinho das mascotes, mas tenho a consciência de analisar aquelas que não são e que não podem existir, mesmo sabendo que as discussões vão muito além. Faço a minha parte.
* A SOZED ainda existe, é uma organização do RJ. Nunca mais me ligaram, nunca mais soube de nada. Espero que ela ainda respire.